sexta-feira, 1 de junho de 2012

Poesia sonora e radioativa em Roterdã



O poeta e artista sonoro Márcio-André estará na 43ª edição do Festival Internacional de Poesia de Roterdã – um dos eventos literários mais prestigiados da Europa que já recebeu escritores como Pablo Neruda, Octavio Paz, Joseph Brodsky e Ferreira Gullar.

Entre os dias 12 e 17 de junho, Márcio lerá seus textos em português – enquanto versões em inglês e holandês são exibidas em telões – e discutirá sobre sua obra multimídia, livre das plataformas convencionais. “O livro não pode hoje suportar sozinho a responsabilidade de levar a poesia para a praça pública, para o povo”, defende.

Com quatro livros editados, o jovem artista carioca é hoje referência em poesia experimental no Brasil. Traduzido em mais de dez idiomas, ganhou notoriedade internacional pelo recital que fez em Chernobyl, onde permaneceu por seis horas lendo poesia enquanto se contaminava por césio.

Márcio já foi colaborador de O Globo, Jornal do Brasil e O Estado de Minas e esteve em eventos como o Festival do SilêncioBalada Literária e Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra. Vive hoje em Lisboa e acaba de lançar Ensaios Radioativos na Espanha. Para conhecer de perto seu trabalho, visite o site http://www.marcioandre.com/

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"O Inventário de Julio Reis" e o desafio de Molica


No início do século XX, o compositor paulista Julio Reis (1863-1933) luta para brilhar na capital federal e se desespera com as mudanças na música. Décadas depois, Frederico, filho do maestro, tenta impedir que seu pai seja esquecido e se dedica, até o fim da vida, a resgatar sua memória e sua obra. Neste romance, o escritor Fernando Molica, bisneto de Julio Reis, conta ficcionalmente a história do músico, de seu filho e de um tempo de grandes transformações. Em entrevista à Shahid, Molica fala sobre o prazer e os desafios de reproduzir a trajetória deste personagem.

O que você sabia sobre Julio Reis, como bisneto dele, antes de escrever o livro?
O conhecimento sobre Julio Reis veio do meu avô Frederico Mário, com quem convivi muitos anos (quando ele morreu, eu tinha 31 anos). Lá pelo início da minha adolescência, eu fiquei sabendo que meu bisavô tinha sido compositor de sinfonias e óperas, achei isso muito legal, interessante. Meu avô dedicou-se muito à ideia de recuperar a obra do pai, fazê-la voltar a circular, mas infelizmente não conseguiu. Depois da morte do meu avô, acabei ficando com o acervo do Julio Reis – partituras manuscritas, recortes de jornais. Durante um bom tempo não sabia bem o que fazer, até que resolvi escrever um romance baseado em sua vida.

O Inventário de Julio Reis é uma obra de ficção, porém baseada na trajetória real de Julio Reis na cidade do Rio de Janeiro. O que é ficção e o é realidade no livro?
É muito difícil separar ficção e a chamada realidade. Uma mesma realidade ganha relatos diferentes quando contada por diferentes pessoas. Não inventei títulos de composições, ele é autor de tudo o que é citado, procurei ser rígido neste ponto. Mas o acervo deixado pelo Julio Reis é amplo, porém muito, digamos, duro. Eu tinha ali muito material crítico, reportagens, resenhas, além das partituras. Faltava dar uma cara, uma personalidade, buscar entender os desejos, os sonhos, os amores e as frustrações daquele personagem que viveu numa época de tantas mudanças. Não daria para fazer uma biografia formal, eu não tinha elementos nem vontade para isso. O que busquei foi interpretar aqueles papéis, criar uma espécie de variação ou fuga - para usar uma linguagem musical - em torno das vidas do Julio Reis e de seu filho Frederico.

Como a vida no Rio influenciou a arte de Julio?
O Rio, então capital federal, vivia um período de muitas mudanças, de consolidação da República, de profundas alterações urbanísticas. Foi a época de revoltas populares e militares, de remoção de milhares de pessoas, de construção das grandes avenidas. Julio Reis era um compositor de características românticas, apegado à tradição da música europeia. De certa forma, ele foi atropelado pelas mudanças, pelas modificações na própria música. Ele não aceitava a modernização empreendida por compositores como Debussy e, um pouco mais tarde, por Villa-Lobos.

O que você destacaria de sua obra?
Eu não sou músico, não sei ler partitura. Agora é que estou começando a conhecer um pouco a obra do Julio Reis. Conheço apenas gravações de uma valsa, Alvorada das rosas, feita para o flautista Patápio Silva. No lançamento do livro, o pianista João Bittencourt tocou algumas outras peças - polcas, mazurcas, tangos brasileiros. E, no dia 20, a Orquestra Sinfônica UniRio executou Vigília d'armas, uma sinfonia que não era tocada há 89 anos. No próximo dia 3 haverá outro concerto. Lá no meu site – www.fernandomolica.com.br – eu criei um espaço para o Julio Reis, coloquei dezenas de partituras que podem ser baixadas.

Por que você acha que a história dele ficou esquecida? O que há de mais importante neste resgate que você fez?
Ele se dedicou a um tipo de música que não chega a ser muito popular. Muitos compositores da chamada música clássica ou erudita também acabaram esquecidos, as orquestras se dedicam mais ao repertório mais consagrado. Pouco se sabe até mesmo dos compositores brasileiros contemporâneos. Além disso, Julio Reis remou contra a maré ao se posicionar contra a modernidade. O resgate é, talvez, uma consequência do livro. Mas, insisto, o livro é uma obra de ficção que só tem compromisso com a própria história que é ali contada. O inventário de Julio Reis é um romance que, por acaso, se baseia na vida de pessoas que existiram, mas ele deve se sustentar como ficção e não como biografia. O resgate da obra do compositor é algo que ocorre de forma paralela, tanto que, no meu site, eu coloquei uma pequena biografia história do Julio Reis, baseada nos documentos que ele deixou.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

"Boa ventura!", agora em Portugal



Fevereiro de 1876. O falido rei D. Luís I vasculha os cofres portugueses à procura de joias que possam ser vendidas para pagar dívidas. Na busca, ele encontra uma pepita de ouro de pouco mais de 20 quilos, do tamanho de um melão. Esquecida por décadas nos Tesouros Reais, a pedra retirada de solo brasileiro é o último remanescente de uma época de riqueza incalculável para o velho império lusitano.

É com esta cena que o jornalista Lucas Figueiredo dá início à reportagem histórica que resultou no livro Boa Ventura!, publicado pela Record em 2011. Agora, a obra é lançada também em Portugal, pela Editora Marcador e com novo título: A última pepita. Elogiada por Laurentino Gomes, a aventura narra a dura e demorada trajetória de monarcas perdulários e administradores corruptos em direção às nossas riquezas minerais – logo pulverizadas por toda Europa.

A Shahid se orgulha de ter conduzido o processo de venda dos direitos e publicação fora do Brasil de obra tão bem produzida. O escritor Lucas Figueiredo já acumula três prêmios Esso – o mais importante do jornalismo nacional – e a autoria de outros quatro livros-reportagem.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A lanterna mágica de João Batista Melo


Como se faz cinema para crianças no Brasil? A resposta está no livro Lanterna mágica: infância e cinema infantil (Civilização Brasileira) do escritor e cineasta mineiro João Batista Melo. O trabalho – primeiro a tratar do tema no país – é resultado de seu mestrado na Unicamp em 2004. Em entrevista à Shahid, João conta sobre a sua relação com livros e filmes, da infância até os dias de hoje, e questiona a qualidade das produções nacionais voltadas ao público infantil. 

Como nasceu seu interesse pelo cinema infantil?
Desde a adolescência tenho uma relação forte com o cinema. Com 15 anos, rodei meu primeiro filme – ou pelo menos parte dele, já que era um megalomaníaco projeto de longa-metragem. Pouco tempo depois já escrevia críticas de cinema para o jornal Estado de Minas e dirigi meu primeiro curta-metragem. Mas nunca tive nenhum interesse ou atração especial pelo gênero até que, em 2001, fiz um mestrado sobre o tema. À medida que fui estudando o assunto, aí sim comecei a me envolver de maneira mais intensa. Principalmente ao descobrir que, apesar de existirem muitos filmes belíssimos, o cinema infantil foi muito pouco estudado no mundo e, principalmente, no Brasil. 

Ao estudar a ficção escrita para crianças como base para o cinema, quais características chamaram mais sua atenção?
O cinema infantil sempre buscou inspiração na literatura infantil. Inicialmente nos contos de fadas e nos romances clássicos, como Alice no País das Maravilhas, que teve sua primeira versão para o cinema no início do século XX. No Brasil, um dos primeiros longas-metragens para crianças, O Saci, de Rodolfo Nanni, foi baseado num livro de Monteiro Lobato. Mas a partir da década de 1970, a literatura praticamente desapareceu como fonte de inspiração para os filmes infantis, substituída por temas e heróis com origem na televisão, a exemplo de Xuxa e Renato Aragão, cujos filmes respondem por 50% da produção nacional para crianças. 

Em sua opinião, o cinema infantil deve ser educativo?
Não gosto do termo educativo aplicado à arte. Prefiro o termo pedagógico. E nesse sentido penso que tudo produzido para crianças deve ser pedagógico. Quem produz cinema infantil precisa ter a percepção permanente de que seu público possui características especiais que não podem ser ignoradas na concepção e na realização de um filme. Trata-se de um espectador que está em processo de formação, de construção de suas relações com o mundo, com um senso crítico ainda em evolução, quando não incipiente. No meu livro, considero como filme infantil, numa concepção ideal, aquele que tem como personagem principal uma criança que enfrenta desafios e cresce psicologicamente em sua jornada. Nada mais pedagógico do que isso. 

Como você avalia o desenvolvimento do cinema infantil no Brasil?
Se o estudo do cinema infantil no Brasil é quantitativamente insignificante, a produção é pior ainda. Somente 2% dos filmes brasileiros foram pensados para o público infantil – e mesmo assim metade deles são produções de Xuxa e Renato Aragão. Cinema é uma arte muito cara e ainda temos o já mencionado fator televisão. Mas no mundo inteiro, com exceção de Hollywood, o cinema infantil depende de apoio governamental. E o Estado faz questão de apoiar pois compreende a necessidade de um tratamento diferenciado no diálogo com esse público. No Brasil, não existe nenhuma lei a respeito, o que ajuda a explicar os pífios 2%. 

Quais filmes marcaram sua infância?
Na minha casa se lia muito. Da minha infância e início da adolescência ficaram as lembranças das leituras de Julio Verne, Alexandre Dumas, Emilio Salgari. Mas não havia o hábito de ir ao cinema, exceto para ver Mazzaroppi, o único ídolo de meu pai no cinema. Comecei a ver muitos filmes infantis, como os de Walt Disney, depois de adulto. E essa experiência me fez valorizar uma frase muito legal de C.S. Lewis, o autor de Crônicas de Narnia: um livro infantil é bom quando ele também interessa a um adulto. Em Lanterna Mágica, levo essa ideia para o cinema: um filme infantil somente é bom se ele também for interessante para um adulto.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cristal rutilado, de Vania Azamor



Há uma linha mestra em Cristal rutilado (7 Letras), novo livro de Vania Azamor. A autora se vale da espiritualidade para discorrer sobre eternidade e transcendência. Assim, ilumina o oculto, aliando metafísica a ensinamentos da filosofia oriental. Na orelha do livro, Suzana Vargas adverte o leitor: "livro pra ser degustado sem pressa, com olhos e ouvidos atentos".
Vania é funcionária pública e possui mais dois livros publicados: Olhar mineral(2003) e Facas da manhã (1997). Suas poesias já foram publicadas na revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional, nos jornais Poesia Viva, Panorama da Palavra e Rio Letras. Leia um poema de Cristal rutilado: 
CORDÃO UMBILICAL 
Em tudo há mãe
o cerne o começo.
Da minha tenho quase tudo
o sorriso, a face, a vulva
o que insiste e persiste
no dia seguinte
e em mais outro dia
o que a esse se soma
a vontade de mais outro dia.
E como um novelo
desenrolo os dias
até nela chegar. 




Por Rodrigo Canuto 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Literatura e Drogas

Foto: Paula Kossatz

Arte, literatura, ambição, drogas, loucura. Esta é a mistura da peça O bom canário, em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Poeira, em Botafogo. Escrita pelo norte-americano Zacharias Helm, que possui longa carreira como roteirista de cinema, a trama do espetáculo nos apresenta o casal Annie (Flávia Zillo) e Jack (Joelson Medeiros). Ela, dona de casa e viciada em anfetaminas; ele, escritor de um romance de sucesso. Há ainda os personagens do editor, o agente literário e o crítico literário.

Ambientada na Nova York invernal, O bom canário foi apresentada na França em 2007, sob direção de John Malkovich. Na época, a peça recebeu em Paris seis indicações para o Moliére e ganhou o Crystal Globe Award. Por aqui, recebeu críticas elogiosas de Barbara Heliodora e Lionel Fischer.

Rafaela Amado, uma das diretoras da montagem brasileira, afirma que "buscou valorizar o elenco e reforçar a história de cada personagem, trabalhando a fragmentação da vida comum, das relações, dos amores". A iluminação de Luiz Paulo Nenen e o cenário de Lipiani e Lídia Kosovski reforçam a sensação de fragmentação.

O bom canário fica em cartaz até dia 4 de março.






SERVIÇO

Teatro Poeira

Endereço: Rua São João Batista, 104 - Botafogo - Rio de Janeiro

Temporada: de 12 de janeiro a 12 de fevereiro e 23 de fevereiro a 04 de março

De quinta a sábado às 21h e domingo às 19h

Classificação etária: 16 anos

Valor do ingresso: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"Credito tudo à espiritualidade"

Foto: Vânia Laranjeira


Na quarta-feira passada, 26, driblei o sol e as construções e reformas do Centro do Rio para chegar à sede da Praça XV do Museu da Imagem e do Som (MIS). O motivo era mais do que nobre: o compositor, escritor e especialista afro-brasileiro, Nei Lopes participou do Depoimentos para a Posteridade. Foi o início das comemorações de seu aniversário de 70 anos, a ser comemorado dia 9 de maio.

Em quase quatro horas de entrevista, Nei falou de infância, de vida no subúrbio, de carreira (como advogado, artista e pesquisador), de literatura, e, claro, de muita, muita música. Avaliando seus percalços e suas conquistas, ele resume: "credito tudo à espiritualidade".

Vestido de vermelho em homenagem a Xangô, Nei contou sua infância no Irajá. A música se fazia presente no cotidiano graças a um irmão mais velho e à mãe, que cantava enquanto cuidava da casa e dos doze filhos. O caçula era apaixonado pelo carnaval. Quando passou a estudar na Escola Técnica Visconde de Mauá, o samba foi incorporado com mais força á rotina do garoto.

Nei alcançou certa fama quando em 1972, Alcione gravou duas músicas suas. Em 1975, Nei conheceu Wilson Moreira, que viria a ser seu principal parceiro nas composições. Clara Nunes gravou seis composições da dupla, entre elas a clássica Senhora Liberdade. Outros intérpretes das canções de Nei foram Alcione, Roberto Ribeiro, Elizeth Cardoso, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, entre outros.

Desde 1981, Nei também é escritor e pesquisador. Lançou 27 livros, entre poesia, romance, livros de história e obras de consulta. Em todos eles, a negritude, a história dos africanos, a cultura e a religião da África, mãe de todos nós. Seu último lançamento foi Essa árvore dourada que supomos (Babel) em novembro passado. Para 2012, serão lançados o Dicionário da hinterlândia(sobre as origens dos nomes dos bairros do subúrbio carioca) e o romance A Lua triste descamba. Seu Dicionário Banto ganhará reedição e o escritor ainda deixou no ar a promessa de um livro infantil.

O artista escolheu bem seus entrevistadores. Além da pesquisadora e vice-presidente do MIS Rachel Valença, estavam na mesa o escritor Alberto Mussa, o músico e compositor Claudio Jorge, o jornalista Fernando Molica e o historiador Joel Rufino. Todos compartilhavam com Nei uma história curiosa ou a paixão pela música popular.

Como advogado, Nei atuou por pouco tempo. Não gostava da carreira. Mas ela teve seu valor: quando questionado sobre a nostalgia como tema recorrente em suas canções, Nei se lembrou de como compôs Samba do Irajá. Certo dia, já saturado pelo trabalho, não acompanhou seus colegas para o almoço. Ficou no escritório e datilografou a canção. "Irajá é uma metáfora do meu pai saudoso", revelou. Na folha do original, ficou a marca de uma lágrima.

E aí, o momento mais emocionante do dia: Nei e todo o auditório cantaram juntos Samba do Irajá. Cláudio Jorge improvisou a percussão em um livro e Alberto Mussa tirou melodia da espiral de um calendário. Foi a conclusão perfeita para uma tarde recheada de revelações, história divertidas e espiritualidade. 


Por Rodrigo Canuto